Garotas superpoderosas?

Olha como sou boazinha, digitei a matéria TODA da Vogue de outubro para vocês!
“Coisa de três anos atrás, mulher que falasse só de sapato e bolsa era “it chata”. Hoje os blogs de sucesso de moda falam de quê? Sapato e bolsa. Aí me pergunto: como esse tipo de conversa superficial – e viciante como cigarro e álcool – ganhou sinal verde a ponto de transformar em fashion stars meninas que passam seus dias (e às vezes noites) postando monotematicamente sobre o que estão vestindo ou gostariam de vestir?
Torturada por essa questão, fui parar no sofá do meu amigo lacaniano Jorge Forbes. E concluí com a ajuda dele que as blogueiras de moda constituem hoje, quem diria, um fenômeno de contracultutra, de resistência ao individualismo – a maior e mais agregadora tendência de comportamento contemporânea. Explico: as leitoras dos blogs querem ser como suas autoras, comprando as mesmas roupas e montando o mesmo look do dia. Depois de décadas sendo doutrinadas de que bom senso mesmo é ser diferente, buscam a semelhança para construir suas próprias identidades.

Outra conclusão importante é de que as fashion bloggers são fruto do casamento da dona revolução digital com nosso bom e velho Narciso. E dele posso falar: sou melhor amiga! Narciso não é um apaixonado por ele mesmo. É alguém muito carente. E vivemos em uma sociedade de relações líquidas, com vínculos pobres, que produz gente com necessidade tóxica de atenção. Tomar emprestado o valor de objetos que falam por si (love logos, anyone?) faz com que se sintam reconhecidas, inclusas. Gritar para o mundo o que fazem e como fazem valida essa mecânica hiperconsumista. E, quanto mais plateia, mais gratificadas elas se sentem.
Que fique claro: não tenho nada contra blogs per se. E amo sapato e bolsa. Mas só isso e pulseirismos? Será que precisa ser tudo tão vazio? ‘Blogs de moda são wannabe por excelência – wannabe loved, wannabe famous’, filosofa Luiz Felipe Pondé. A categoria não deve, entretanto, ser pensada com indignação, como se fosse a Geni do novo milênio. ‘Tudo isso é um diagnóstico que atesta como a gente é mesmo banal hoje em dia. Vaidade em latim é vanitas, que é vão, vazio’, completa.
Há coisa de um mês, muitos foram ao delírio com o bas-fond – inclusive eu – dos consumidores que denunciaram para o Conar, órgão regulamentador da publicidade, três blogueiras de moda que supostamente publicaram posts pagos, falando bem de uma determinada marca de beleza, tratados como se fossem conteúdo meramente editorial. Publicidade travestida de notícia sem advertência é propaganda enganosa, crime contra o consumidor – e isso, no way. Em jornalismo é antiético precificar opinião, uma vez que sua base é justamente a isenção de comprometimento. São regras tradicionais, que existem desde os tempos de Gutenberg e que precisam mesmo de guardiões de ambos os lados do balcão.
Como profissional bipolar – jornalista e publicitária – entendo que vestir uma roupa x, um sapato y, tirar foto na frente do espelho e postar em social media com os devidos créditos não é jornalismo. É fenômeno de uma nova era, com novas linguagens, valores e ferramentas, construido em torno de um meio, a web, ainda sem regulamentação. Dada a brecha, há quem misture as bolas e comercialize o que deveria ser apenas uma opinião pessoal. E dá dinheiro. Tem quem pague. Tem quem dê audiência. Tem que goste. E quem odeie.
Não importa de que lado você esteja, entretanto, esse é um movimento impossível de barrar. Porque, tesarac!, todo mundo vai ter de se reinventar. A palavra, quase cabalística, foi inventada por um poeta, Shel Silverstein, para rotular algo avassalador que faz você perder o chão, que deixa as coisas esvaziadas de sentido. Para ele, o tesarac foi a morte da filha. Nós, publicitários, usamos a palavra para ilustrar o colapso do jornalismo e da propaganda diante da nova realidade – ainda não consolada – da web. Crimes reais no mundo virtual, hiperconsumismo, copy + paste, overload de informação vazia… Mas há também muita coisa boa surgindo: novas profissões, conexões, voz ativa da sociedade. Como lidar com tudo isso? quem faz conteúdo pode começar lendo Neruda, que ensina: ‘Escrever é fácil. Começa com maiúscula e termina com ponto. É só colocar ideias no meio.‘”
Matéria de Chris Mello, com grifos meus.
(O interessante é isso estar na Vogue, uma das duas revistas brasileiras que mais enaltecem a importância da existência dessas blogueiras fúteis e sem conteúdo.)